Um golpe envolvendo jogadores e dirigentes da dupla Gre-Nal terminou com a prisão de um homem investigado por se passar por profissionais ligados ao futebol para ganhar a confiança das vítimas e pedir dinheiro. Entre os episódios investigados está um caso envolvendo o atacante colombiano José Enamorado, do Grêmio, que transferiu R$ 22 mil após acreditar estar conversando com o técnico Luís Castro.
O suspeito, identificado como Lucas de Oliveira Eduardo, foi preso na manhã desta quarta-feira (2), em Itaperuna, no interior do Rio de Janeiro. A prisão ocorreu durante a operação Falso 9, realizada em conjunto pelas polícias civis do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro.
A investigação aponta que o homem utilizava conhecimento sobre o ambiente do futebol e a linguagem comum entre jogadores para tornar as abordagens mais convincentes.
Falso Luís Castro passou dias conversando com Enamorado
O caso envolvendo Enamorado teria começado em abril, quando o suspeito entrou em contato com o jogador pelo WhatsApp.
Para construir uma relação de confiança, o homem utilizou uma fotografia de Luís Castro e um número de telefone com DDD do Rio de Janeiro.
A abordagem, segundo a investigação, não começou imediatamente com um pedido de dinheiro.
Durante vários dias, o falso treinador conversou com Enamorado sobre assuntos pessoais e profissionais. Perguntou sobre a rotina do atacante, sua família e seu desempenho nos treinamentos, além de elogiar sua dedicação.
A estratégia teria sido justamente criar proximidade antes de apresentar o pedido.
Em determinado momento, o suspeito ainda teria solicitado que Enamorado não comentasse com outros jogadores do elenco sobre as conversas particulares.
Golpista inventou projeto social para conseguir o dinheiro
Depois de conquistar a confiança do atacante, o homem apresentou uma suposta ação social relacionada ao futebol amador no Rio de Janeiro.
A história envolvia a distribuição de cestas básicas para pessoas carentes. O falso Luís Castro afirmou que já ajudava o projeto e perguntou se o jogador também estaria disposto a contribuir.
Enamorado teria aceitado.
Na sequência, veio o pedido específico: 300 cestas básicas, com cada unidade avaliada em R$ 75. O valor total chegaria a R$ 22,5 mil.
O suspeito enviou uma chave Pix que, segundo a investigação, estaria vinculada a uma suposta responsável pela instituição.
O jogador realizou a transferência em 7 de maio de 2026.
De acordo com a polícia, o dinheiro foi parar em uma conta controlada pelo grupo investigado e a quantia ainda não foi recuperada.
Para completar a fraude, após receber o pagamento, o golpista teria enviado ao atleta uma falsa confirmação de que as cestas haviam sido recebidas pela instituição.
Kannemann também recebeu uma ordem falsa
Enamorado não foi o único jogador do Grêmio abordado.
Outros atletas receberam mensagens suspeitas e, desconfiados, buscaram confirmar as informações diretamente com o clube.
Em um dos episódios que mais chamaram atenção, o golpista se passou novamente por alguém ligado ao Grêmio e entrou em contato com Walter Kannemann.
O zagueiro argentino recebeu uma suposta orientação para comparecer mais cedo ao treinamento no CT do Grêmio, localizado no bairro Humaitá, em Porto Alegre.
Kannemann estranhou a determinação e decidiu verificar a informação.
Foi então que descobriu que não havia nenhuma ordem do clube para que ele chegasse antecipadamente ao treinamento.
O episódio ajudou a revelar o padrão utilizado pelo suspeito: utilizar informações e situações comuns do cotidiano de um clube de futebol para tornar as mensagens aparentemente legítimas.
Ídolo do Inter também foi alvo
O esquema não ficou restrito ao Grêmio.
Pessoas ligadas ao Internacional também receberam abordagens do suspeito.
Entre os alvos estava Andrés D’Alessandro, ídolo colorado e ex-dirigente do clube.
Eduardo teria iniciado uma conversa se passando por uma pessoa conhecida de D’Alessandro e, posteriormente, a interação também evoluiu para um pedido de dinheiro.
O ex-jogador, porém, não deu continuidade à conversa e não realizou nenhum pagamento.
Polícia rastreou suspeito e conseguiu prisão preventiva
A investigação foi conduzida pela 4ª Delegacia de Polícia Distrital de Porto Alegre, unidade responsável pela região onde ficam a Arena e o CT do Grêmio.
A partir do caso envolvendo o jogador gremista, o delegado Gabriel Lourenço passou a rastrear o suspeito e solicitou medidas judiciais.
A prisão preventiva foi autorizada pela 2ª Vara de Garantias de Porto Alegre.
Embora a ordem tenha sido expedida pela Justiça gaúcha, Lucas de Oliveira Eduardo permanecerá inicialmente no Rio de Janeiro, onde também existem suspeitas de que tenha praticado crimes semelhantes.
Suspeito já teria usado o mesmo golpe com nomes conhecidos
As autoridades também investigam possíveis vítimas no Rio de Janeiro.
O suspeito já era investigado no estado por abordagens semelhantes. Entre os casos levantados estão supostos pedidos de dinheiro feitos ao técnico Dorival Júnior, quando ele comandava a Seleção Brasileira.
Dirigentes ligados à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) também teriam sido abordados.
Para a polícia, o conhecimento do ambiente esportivo teria sido um dos fatores que ajudaram o suspeito a construir uma aparência de credibilidade.
Segundo o delegado Gabriel Lourenço, o fato de o investigado ter passado pelas categorias de base do futebol teria contribuído para que ele conhecesse a maneira como jogadores e profissionais do esporte se comunicam.
A investigação agora busca identificar outras possíveis vítimas e descobrir a extensão do esquema.
A opinião do Grêmio Copero Histórico
O caso chama atenção porque mostra como golpes direcionados a jogadores podem explorar justamente aquilo que deveria gerar confiança: a rotina e a linguagem do futebol.
No caso de Enamorado, o criminoso não chegou pedindo dinheiro imediatamente. Primeiro criou uma relação, conversou sobre futebol, família e treinamentos e somente depois apresentou uma história aparentemente legítima.
O episódio envolvendo Kannemann também mostra como uma simples mensagem pode causar confusão dentro de um clube quando utiliza informações específicas da rotina dos atletas.
Para jogadores e dirigentes, a principal lição é clara: qualquer pedido financeiro ou orientação fora do procedimento habitual precisa ser confirmado diretamente com o clube.
O prejuízo financeiro é relevante, mas o caso também expõe a necessidade de reforçar os protocolos de comunicação entre atletas, comissão técnica e direção.
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